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23/01/2014

a arte de ser feliz


Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
- Cecília Meireles -

10/06/2013

paisagens que vi através de janelas ou vigias...


Trago dentro do meu coração...
Como num cofre que se não pode fechar de cheio...
Todos os lugares onde estive...
Todos os portos a que cheguei...
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias...
Ou de tombadilhos, sonhando...
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
- Fernando Pessoa -

20/05/2013

naquele dia de céu azul límpido


Naquele dia fazia um azul tão límpido, meu Deus, que eu me sentia perdoado pra sempre não sei de quê.

- Mário Quintana -






31/03/2013

Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música
não começaria com partituras, notas e pautas.
Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria
sobre os instrumentos que fazem a música.
Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria
que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas.
Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas
para a produção da beleza musical. 
A experiência da beleza tem de vir antes.
- Rubem Alves -

te espero no farol






Quem é que, no adentrar do outono, não traz na mente a presença forte como um farol, daquela figura de mestra que nos adocica a memória, que nos arremete à infância com seus cheiros, suas cores e algazarras.
- Habacuck -

O farol recria
uma ilusão de voos
e gaivotas famintas
digerem o crepúsculo.
- Mário Massari -

é no vazio da distância que vive a saudade


é no vazio da distância que vive a saudade

A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. 
A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. 
Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. 
E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. 
A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. 
Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. 
São umas chatas quando não são autoritárias. 
Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. 
A essas pessoas é fácil amar. 
Elas estão cheias de vazio. 
E é no vazio da distância que vive a saudade...
- Rubens Alves -
Hoje a janela me ofereceu uma paisagem 
Ofereceu-me o pôr do sol 
muitos, eu sei, em meu lugar seriam capazes de poetar 
de escrever em tintas coloridas ou belas palavras 
O cenário que se apresentava ante minha janela
Eu, eu porém estava neutro 
eu havia visto aquilo antes 
muitos exaltaram o lilás-avermelhado do céu 
teceriam espíritos iluminados das nuvens 
ressuscitando formas
Ontem, eu teceria também, mas hoje estou neutro 
sem forças, somente existindo 
ontem, eu disse, que lindo azul eu sou 
que lilás-avermelhado eu posso ver 
eu posso, eu posso ver 
pois a natureza é incolor 
Natureza morta 
somente átomos em profusão dominam 
o que percebemos erradamente como formas numa gestalt 
que no fundo não há nada de belo 
é só você, você, você 
os poetas descritivos estão redondamente enganados 
ao invés de exaltar a beleza da natureza falsa 
deveriam dedicar odes a si próprios 
exaltando nosso eu 
que sem dúvida é maravilhoso e incrível 
pois é com esse mecanismo complexo que nos leva 
a perceber tais fotografias
O pôr do sol 
Eu me ponho às 6 horas na Bahia e às 7 no Rio
Eu sou o céu com andorinhas 
Eu sou o mar com seus peixes 
Eu sou o mundo inteiro 
assim piso no lugar que cheguei 
aqui está minha ode que faria ontem
Eu sou o sol 
que belo lilás estou, que faço aqui, porque me ponho 
criatura cheia de porquês e vivo e gracioso cérebro 
que linda massa acinzentada, oh 
máquina poderosa, força de energias mil 
faze-me crer que estou vivo 
que existo nesse Brasil 
Ô mago do cosmos, poderoso mais que Alexandre
poderoso mais que eu possa conceber ou imaginar 
entre tu e as tripas aparentemente parecidas 
diferes em criação desde tempos já idos 
Oh, massa molecular 
eu sou o azul lilás que essa janela me trás
- Raul Seixas -

Leve a vida mais Leve

Leve a vida mais Leve. Acerte os ponteiros, não brigue nem resista ao tempo. Pelo contrário, alie-se à ele. Deguste cada passo dado nessa tr...

Beleza Roubada